Depois de mais uma polêmica da autora de Harry Potter com a comunidade LGBTI+, dessa vez com JK Rowling sendo acusada de transfobia, uma fã transexual escreveu uma carta, publicada no Hufpost, em que afirma que “não consegue explicar a dor que sente sabendo que a autora que escreveu a série de livros mais formativos sua vida não acredita que ela é válida”.

Dana Aliya Levinson, que é atriz, escritora, compositora e advogada trans, lembra que a carta é apenas o seu ponto de vista como mulher transexual sobre os danos causado a outras trans e reconhece que este não é o “único lugar em que danos estão sendo causados”.

Contando sua história, lembra que quando criança era feminina e seus pais liberais imaginavam que ela cresceria gay, mas que ser transgênero não estava nunca no radar deles. Relata que eles não se importavam com suas expressões de gênero, como se enrolava em toalhas fingindo que eram vestidos ou cantava músicas da última princesa da Disney.

Porém, no ensino fundamental, sua feminilidade fez com que fosse alvo de “bullying torturante”. Dana foi chamada de “bicha” aos seis anos de idade e os funcionários e professores da escola não fizeram nada. O isolamento e abuso físico e mental refletiram diretamente em seu desempenho escolar. “Você é tão inteligente. Não entendemos por que você não está se saindo melhor na escola!”, era um questionamento comum a época.

Ninguém queria ver a verdade do que estava acontecendo. Como uma criança se concentra na escola quando é abusada por seus pares diariamente por sua feminilidade?

Dana relembra seu período na escola

Alguns anos depois teve seu primeiro pensamento suicida: “Muitas noites seguidas, eu acordava no meio da noite com medo de ir para a escola no dia seguinte e suportar outra rodada de tortura”. Hoje é grata por não ter seguido a diante. Mas pede que a autora de Harry Potter, JK Rowling, pare e pense como o preço de existir como uma criança trans foi tão grande que considerou o suicídio antes mesmo de ter 10 anos de idade.

O apoio veio na figura do avô: “Eu nunca senti que ele esperava que eu fosse outra coisa senão exatamente quem eu era”. Mas, ele faleceu quando Dana tinha 12 anos. Neste mesmo ano ela descobriu “Harry Potter e a Pedra Filosofal”

O primeiro livro saiu um ano antes, mas eu me recusei a ler simplesmente porque era popular. Mas, depois que meu avô morreu, eu abri o livro. Aqui estava eu, uma criança passando por um sofrimento extremo, querendo desesperadamente encontrar qualquer tipo de fuga … e lá estava Harry.

Dana conta como começou sua relação com Harry Potter

Dana afirma que se perdeu completamente no mundo do personagem criado por JK Rowling: “Me relacionei com seu isolamento e abuso. Eu me relacionei com sua dor. Queria ser levada para Hogwarts para encontrar a família entre amigos”. Lembra até da angústia ao ler o capítulo sobre o “Espelho da Oração”, porque sabia que isso mostraria ela mesma como “uma garota olhando para mim”.

Nessa idade Dana se considerava gay, embora soubesse que não estava completa com isso. Ela afirma que de certa forma já sabia que era trans, mas lembra que as mulheres trans eram retratadas como piadas, objetos sexuais e pessoas à margem.

Enquanto isso meu corpo começou a me trair. Eu me senti totalmente impotente quando meu corpo se transformou em algo irreconhecível diante dos meus olhos. Eu me senti desassociado de cada fibra do meu ser.

Dana relata o processo de não reconhecimento do seu corpo

O nível de dor que estava enfrentando “por causa do suposto crime de nascer trans” a levou a usar drogas e álcool com apenas 12 anos. “Mais uma vez eu estava pensando em suicídio e abuso de drogas e álcool antes mesmo de ser adolescente”, relata Dana, pedindo que a autora de Harry Potter deixe esse sentimento entrar por apenas um minuto.

Dana afirma que as únicas constantes em sua vida além da dor foram Harry, Hermione e Ron. Lembra que foi à meia-noite para lançamentos de livros, estava na primeira exibição de todos os filmes e continuou se encontrando nas jornadas de seus personagens. “Foi aí que encontrei algum grau de esperança para o meu futuro”.

Seus livros literalmente me ajudaram a me manter viva. Quando tinha 20 anos, tive um colapso devido à pressão de viver uma mentira. Finalmente cheguei a um ponto em que percebi que tinha apenas duas opções: transição ou suicídio. Eu escolhi o primeiro. Lembro-me de pensar: Dana, você é da Grifinória.

Dana relata como Harry Potter a ajudou a se manter viva

Foi nessa época que fez a transição médica e também ficou sóbria. Dana resolveu comemorar seu primeiro aniversário sóbria relendo todos os livros, revendo todos os filmes e indo assistir a peça na Broadway. “Eu queria fazer algo que nutrisse meu eu interior. Sabia que Harry Potter faria exatamente isso. Afinal, foram as séries que me fizeram passar por tudo”, lembra.

Depois de contar sua história e a forte ligação com a obra de JK Rowling, Dana afirma que não consegue explicar o quanto foi doloroso a recente deslegitimação da sua existência pela autora de Harry Potter. Foi então que decidiu escrever esta carta, “porque há algumas coisas que quero que você entenda”.

Fazendo um apelo pessoal a autora, Dana lembra que “mulheres trans e mulheres cis são diferentes, mas ninguém está tirando nada de você”. Para ela, reconhecer a validade das mulheres trans, ajustando o discurso para incluir, não exige nada de JK Rowling.

Suas experiências como mulher cis são suas experiências como mulher cis, assim como minhas experiências como mulher trans são minhas experiências como mulher trans. Eles não são as mesmas, mas isso não significa que nenhuma das experiências seja inválida.

Dana fala diretamente com a autora de Harry Potter

Lembrando o caso de um amiga cis que inicialmente teve dificuldade em entender, mas que agora não só entendeu a identidade trans, como passou a ser apoiadora da comunidade; Dana afirma que acredita que JK Rowling possa aprender e crescer também: “Eu tenho que acreditar. Eu não quero acreditar no contrário”.

O fato é que mulheres trans e mulheres cis sofrem violência baseada em gênero. Eu tive um pequeno privilégio masculino antes de fazer a transição, tanto quanto uma pessoa feminina em um corpo masculino pode ter. Mas você teve o privilégio de ter seu gênero afirmado por toda a sua vida e não ter que lutar para reconhecer a validade de sua existência

Dana lembra que a luta das mulheres trans e cis não deveriam ser concorrentes

Lembrando que mulheres trans são estatisticamente mais propensas a sofrer abuso e violência por causa de seu sexo do que as mulheres cis, Dana enfatiza que mulheres trans negras, em particular, enfrentam níveis desproporcionalmente altos de violência.

Para ela, JK Rowling está atacando algumas das pessoas mais vulneráveis ​​do mundo, em especial em um momento que há uma revolta global que pede o fim do racismo e exige que valorizemos as vidas negras. Ainda, que o fato da autora de Harry Potter ter escrito sobre opressão e tribalismo causando danos e violência, torna o fato particularmente surpreendente e devastador.

Dan chega a dizer que pelo que Rowling escreveu acredita que a autora de Harry Potter não entenda que esteja causando danos. “Mas ao deslegitimar a identidade trans, você está perpetuando as narrativas que exacerbam a violência contra a nossa comunidade”, completa.

Na carta fez questão de lembrar que os altos níveis de suicídio, abuso e dependência na comunidade transexual não acontece porque são trans, mas sim porque “vivemos em um mundo que nega ou demoniza a nossa existência”.

Se referindo a fala de Daniel Radcliffe em apoio a comunidade trans, Dan disse que chorou ao ler a parte que fala aos fãs que “se você encontrou alguma coisa que ressoou e ajudou você a qualquer momento da sua vida, então isso é entre você e o livro que você lê. E é sagrado”. “Eu nem percebi o quanto precisava ler isso até ler”, lembra.

Por fim, afirma que sabe que a a autora de Harry Potter sabe que é consenso na comunidade médica e psicológica que a identidade trans é real. E lembra que a as mulheres trans são “simplesmente outro grupo de mulheres pedindo que você também as defenda”. E completa: “Você não está sendo atacado por defender mulheres”.

Afirmando ser eternamente grata a “Harry Potter” por a ter ajudado a passar pela escuridão em sua vida, Dan afirma que escreve essa carta para a autora de Harry Potter por ter o privilégio que muitas pessoas trans ainda não têm. “Muitos de nós ainda estão sofrendo dores e dificuldades. E muitos de nós já perdemos e continuamos a perder tantas coisas simplesmente porque ousamos sonhar em ser exatamente quem somos”, afirma.

Ousar sonhar com um mundo melhor é algo que você ensinou a todos nós. Não tire esse presente contaminando-o com transfobia. Oro para que isso não seja um fim, mas, ao contrário, o começo de uma jornada em direção à compreensão.

Dan faz pedido a JK Rowling

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