“Eu não curto ficar com cara aidético, desculpa…”. Essa foi a justificativa mais plausível que um usuário do aplicativo gay Hornet achou para me dispensar.

Não foi a primeira, tão pouco será a última vez que senti o peso da sorofobia. Dois anos após o ocorrido e muitas experiências depois, o último capítulo do meu projeto “Positivei” foi publicado e falei pela primeira vez sobre como me sentia sozinho depois do diagnóstico.

Tive muito medo de tocar nessa ferida por causa da responsabilidade social ao redor do tema. Era um terreno perigoso. Não queria trazer mais medo e ansiedade às pessoas que o procuram, mas naquele momento achei importante me abrir.

Entre o penúltimo e último capítulo do projeto há meses de lacuna. Eu posterguei porque queria ter um capítulo sobre amor, sobre uma relação que deu certo. Sobre dizer que as pessoas pode amar e acreditar, mesmo com o diagnóstico. Sei do bem que isso faria, mas também sei do bem que a série já fez até ali e ao invés disso, eu decidi abordar esse lado solitário.

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Um dos primeiros pensamentos que se tem depois de ler a palavra reagente naquele papel é que você não vai mais se relacionar de novo, que as pessoas vão te virar as costas, vão dizer a frase que abre este texto. Foi muito dolorido tocar nesse assunto e eu confesso que parei em alguns momentos daquele capítulo pra chorar. Eu achava que estava deixando um buraco na esperança dos leitores e queria dizer a todos que era possível. Mas eu aceitei que comigo não deu certo e esclareci que tem uma galera se relacionando e feliz após o diagnóstico.

Eu amo me relacionar, amo me dedicar. Faço isso até nos encontros mais casuais. Parece que me esforço ao máximo pra ser uma experiência boa ficar comigo. Inconscientemente, eu fico tentando compensar o fato de viver com HIV. Isso me machuca, mas tô aprendendo a controlar isso pra não ficar ansioso ou triste.

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Para minha surpresa, o último capítulo teve boa repercussão e recebi muitas mensagens de pessoas que também se sentiam assim me ofereceram seus colos. É importante também se sentir frágil e ter seus momentos de choro e de angústia. Todos temos esses momentos. Assim como é muito importante não deixar que esses pensamentos controlem você. Maturidade emocional não está ligada a fingir que somos imunes aos sentimentos ruins, ou que não sentimos. O que muda, o que mostra que você cresceu é a forma que vai lidar com eles e os evitar é a pior forma possível.

Não sou o único caso e há histórias com o tão esperado o final feliz. Foi o que aprendi trocando experiência com outros HIV+. Carlos* descobriu o HIV aos 20 anos. Hoje, aos 28, ainda está solteiro por causa do medo de dividir isso com alguém e sofrer, mas isso não evita que ele sofra por causa da solidão. Eu falo abertamente e, às vezes, sofro uma discriminação assim. Mas acredito que vai dar certo e continuo minha jornada.

Pedro* é casado há seis anos. Sabe de sua condição há doze e isso não impediu de realizar seu sonho de ter uma família. Ele e o marido estão nos passos finais do processo de adoção. Janaína* acaba de dar a luz a uma menininha saudável e sem o vírus que só descobriu durante a gestação.

* Os nomes assinalados foram trocados a pedido das pessoas

Daniel Lima
Criador do E-book documentário “Positivei”.
Suas redes sociais viraram porto seguro para troca de experiências entre HIV+, tirando dúvidas e compartilhando angústias.

One thought on “Depoimento: Ser HIV+ e a dificuldade de se relacionar”

  1. Dan ,vc e um exemplo de coragem ,de vida ,tenho muito orgulho de vc continue sendo essa pessoa iluminada ,não esquece que te amo , muito meu filho ♥️

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